Oratório
meninos jogam
capoeira
em frente ao muro da creche
onde, escrita a tiros,
lê-se a epígrafe destes dias
jogam
capoeira
entre os ramos do berimbau
antes da chuva
com as nuvens
-
os tijolos vermelhos lodosos
as casas pela metade
andaimes, latas de tinta vazias,
pedras, cimento, cal
enquanto os burrocratas
do pensamento
discutem mais-valia & idolatria
mercancia & democracia
lucracia & poesia
na sala de justiça
dos bem-nascidos
& rebocam sua vaidade & idiotia
na cara da geral,
outra poesia é feita
neste mundo
na universidade desconhecida
na vida sem fim
de quem chegou até aqui
derrubando, aos murros, o muro
moldando o mundo a muque
-
(...)
ainda que exausta
a existência não fechou seus olhos
uma velhinha no ônibus
me ofereceu uma oração
& seu riso desmantelou
todos os músculos do seu rosto
não rezei com ela
fizemos silêncio juntos
& nos exilamos em nosso subúrbio portátil
sob uma cortina de sangue
onde, do outro lado,
havia um cão sarnento tremendo de frio
& um bailarino impecil
pedindo mais conhaque
Poema n.15
a fotografia sobre a cristaleira
(lembrança de tua avó)
toma conta da sala
(teus olhos,
pequenos sóis
tornando mais belo
o universo
de luzes
que é teu rosto,
umedecem
os meus)
lá fora,
a tarde derruba meus malabares
os pássaros
não suspeitam
do conteúdo
desta carta
e nesta caligrafia
- noite marítima
soprando brisas
sobre esta folha
de amarelos múltiplos -
caminhas comigo
Fabiano Calixto (2014) Equatorial, Lisboa: Tinta-da-China (p. 20-23, 79), poemas originalmente publicados em Música possível (2006)
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